28/04/2015

Como quem fraqueja para vencer

O prédio mais alto da cidade, o vento frio da noite, o céu estrelado e a solidão.
Horas para pensar em si, para pensar em tudo, chorar todas as lágrimas guardadas, rezar todas as preces contidas, lançar todas as maldições podadas.
Medo de tudo, medo de tanto, medo de todos.
Fracasso, traição, mentira, ingratidão, falsidade, abandono. São dores quase físicas. Dói ter certeza que, não é saudável criar tantas expectativas, cada um sonha aquilo que lhe convém, ama o que lhe convém.

Certezas não existem. Só existe a vida, sem manual de instruções, sem garantias, sem segurança, sem contrato registrado em cartório ou assinatura de algum Deus bem foda prometendo felicidade eterna.

Tem que acordar diariamente para, no fim do dia, voltar a dormir.
Chorar as mágoas para sorrir.
Dizer verdades para mentir.
Ser infeliz até se encontrar, naquele curto momento, inesperado e efêmero, que vem e vai num piscar de olhos, quando você se percebe apoiado na pia do banheiro, rosto manchado de rímel, coração na mão, lágrimas de desespero.

E foi.
Este eterno perde e ganha, cai e levanta, bate e apanha.
Dói e cansa, mas se há uma breve esperança, a gente, por teimosia ou arrogância, acredita que como quando eramos crianças, o machucado, o band aid e o merthiolate, se dói demais, pode doer bem mais. E, vai que de repente, nesta dor, um dia a gente encontra nossa paz?

18/03/2015

Dê a alguém

Aquela janela é puro pó, e sua transparência mal mostra o exterior

A garota olha e não vê, não vê sol, não vê céu, nada vê
só vê pó

e o pó adquire vida, e a vida do pó conta histórias
ela vê através da água de seus olhos o pó tomar forma

abandono, tudo encrostado.

só vê o reboco por terminar refletir o que sua vida agora é

uma casa abandonada, tinta descascando na parede, goteiras, mofo e mau cheiro.

e como flores jogadas no lixo, seu perfume tem cheiro de flores mortas, vai ver por isto não seja regada.

Para quê regar flor que já morreu?
Morreu?

Tudo morre, mas pior que a morte consumada é a vida mal vivida.
Eu não morri. Eu não sou flor não regada. Eu não sou pó.

Apenas narro.


22/10/2014

Sobre quase a única vez

O vapor da água quente que caia do chuveiro, fazia o box do banheiro suar, as suas mãos marcavam o vidro como um gemido de prazer, ela, apoiada com os dois pés, que circundavam a cintura e virilha dele, ia e voltava, subia e descia, enquanto ele, que tinha uma pena tatuada em sua mão, apertava a bunda dela, manchando sua pele branca em tom rosa claro.

Enquanto embaixo os movimentos eram de vem e vai, de desce e sobe, lá em cima, ele lambia o rosto e pescoço dela, e passava, às vezes, a língua na orelha, segurava firme sua bunda e, quando o vulcão estava prestes a entrar em erupção, ele, delicadamente, deitou-a no chão e mergulhou com força naquele mar, explodiram juntos, e ela, soube que a onda forte tinha passado quando sentiu aquele pau duro amolecer e a camisinha se soltar lá dentro.

Restando o molhado da água do chuveiro, do suor, do perfume e de seu pênis, latejante por mais buceta.



23/09/2014

Amar gar

O amor é um misto de doce e azedo, amarga no peito e floresce na alma.
O ciume destrói tudo, a vaidade faz sangrar, mas o afeto, esse brota até em concreto.

O sorriso do outro é um farol, te guia na escuridão, mas também te cega quando faz sol.

Você acorda leve e deita pesado, amar demais pesa, mas também eleva seu espirito.

Uma palavra áspera te corta ao meio, isso porque quando quem a gente ama não nos oferta o carinho de sempre, o mimo esperado, a gente pensa que algo vai mal.

Mas basta reler a mensagem de texto do dia anterior, para encher o coração de cor.
Aí você ri e fala sozinho sobre quão sortudo é, por ter sido escolhido pelo amor.

Mas o medo também é inquilino, e você se corrói por dentro só de imaginar o outro partindo.

Sem perceber faz o outro partir. O medo afasta.
Amar é um ato de coragem.
É engolir sapos, flores, insetos, espinhos.

Amar é ser nós ao invés de eu, e ser eu para ser nós.
Amar é se amar para amar o outro, e às vezes deixar de se amar um pouquinho por não estar preparado.

É dividir o tablete de chocolate, o copo de cerveja, a cama de solteiro, os sonhos. as fraquezas, as bobeiras, é se dividir em dois.

Amar é aceitar que o outro ama outros e não poder sentir ciume.
Amar, de verdade, é perdoar-si sempre pelos deslizes e pelas falhas.

É saber que acaba, mas que começa tudo de novo sempre que os dois acreditam no amanhã.

E mesmo que os dois encontrem outros dois, amar é estar feliz por dividir o amor sem egoismo e aceitar que o outro seguiu sem você, mas carrega em si muito do que você doou, e há de enfeitar os dias de amores que ainda virão.

E que venham novas paixões, ou venham nossos filhos, se forem fruto do amor, vou ter cumprido a minha missão.




26/08/2014

Tudo que ainda pode ser

Um dia tive um pai, que vivia dizendo que queria viver sua própria vida, viveu tanto que morreu doente em corpo e alma;
Um dia tive um namorado que vivia dizendo sobre o quanto preferia estar só, ele chorou quando quis partir, e hoje é tão sozinho que se queixou comigo do peso do vazio de não ter ninguém;
Um dia tive uma grande amiga que, dizia que nossa amizade seria para sempre, hoje ela passa por mim e finge não me conhecer;
Um dia tive um irmão, eu me queixava da sua presença irritante e de suas brincadeiras insistentes que maquiavam o amor dele por mim, hoje mal me dirige alguma palavra, e sinto saudade de como eu odiava tê-lo por perto;
Um dia tive uma irmã quase siamesa, fazíamos tudo juntas, e eu queria um quarto só para mim, hoje, sinto falta de dividir meu quarto vazio com ela;
Um dia tive várias ambições, mudar o mundo, revolucionar, ser diferente, lutar pelos mais fracos, hoje reconheço minha fraqueza e luto pra vencer a mim mesma nos momentos de pensamentos tristes;
Um dia tive uma família completa, que brigava por lugar no sofá, controle-remoto, última fatia de lasanha, hoje sobram últimas fatias, espaços no sofá e a televisão vive desligada;
Um dia todos me cumprimentavam e me conheciam, hoje sou uma estranha no ninho;
Um dia as músicas me acompanhavam em todos os momentos, hoje são parte das minhas lembranças;
Um dia sonhei em me formar na faculdade, me formei ano passado e não fui sequer à colação de grau, não tinha ninguém pra me abraçar na hora que recebesse o canudo simbólico do diploma;
Um dia escrevi muitos poemas, hoje releio tudo escrito, e reconheço com um quase nó na garganta, o quanto eu era feliz em excesso e o muito que não valorizei se foi, hoje, temo tanto não valorizar o que tenho, que antecipo a tristeza e a solidão que não vou suportar viver. E bate à minha porta um medo imenso de "tudo que ainda pode ser".

06/05/2014

Sobre uma partida

...a gente se observa, como quem não sabe se pode querer, e sem dizer uma palavra, a gente se enxerga sem ver, sem perceber que somos o nosso lugar.

Vejo o fundo dos seus olhos, seus medos, dúvidas e incertezas e percebo como você é desprotegido, cheio de ilusões e questionamentos. Você me olha e se pergunta: será que ela é a minha melhor opção?

Você quer experimentar outros sabores, outros amores e outras paixões. Você queria me congelar enquanto você prova outros gostos.

Mas o mundo não pode parar por mero capricho seu. E meus sentimentos vivem aqui dentro, como chama que chega a queimar minha triste alma. Você quer ter certeza que não existe ninguém melhor que eu, e se embriaga nas ilusões dos rótulos, dos batons vermelhos e de esmaltes que sensualizam seus dias. Podem sim existir outros cheiros melhores que o meu, mas nunca haverão beijos mais transcendentais que os nossos.

Você pode viajar o mundo todo, frequentar as festas mais badaladas e os bares mais agitados do planeta terra, de Júpiter, vênus e marte, mas é o meu colo que te consola, são meus dedos que tocam seu espirito com amor e meu olhar que te invade com alento.

Ele chegou, revirou meus dias, embaraçou meus cabelos, me encantou com seus dengos, me conquistou com sua ingenuidade e partiu. Partiu por não estar preparado para ser plenamente feliz, partiu por não suportar ser amado tal qual um Deus, partiu por não suportar a ideia de ser único na vida da mulher que, por ele, enfrentaria as mais perigosas batalhas.

Se eu pudesse lhe dizer tudo que guardo aqui dentro, cada frustração, arrependimento, sonho e esperança. Quisera eu ser um sábio, quisera eu ter minha filosofia por ele apreciada. Lhe diria que o futuro é incerto, mas que ao meu lado sua segurança seria certeza, eu lhe contaria que meu desejo é ser seu desejo e que o desejaria infinitamente, fecharia minhas portas para outros desejos e encheria seus dias de dádiva e prazer. Eu lhe diria que ele há de envelhecer, que seus amigos casarão, morrerão ou dirão adeus quando ele mais necessitado estiver, mas que eu, seria jovem eternamente com a força do meu amor, permaneceria ao seu lado, doce, cheirosa, carinhosa e maliciosa para satisfazer suas necessidades espirituais e mundanas.

Te contaria meus sonhos, e juntos os realizaríamos.

Confessaria que depois de sua aparição, minha maior aspiração é: uma casa pequena, boas energias, flores perfumadas no jardim e nossas crianças brincando no quintal.

Mas se ele partiu, devo ficar, manter-me presente em mim mesma.

Quando ele chegar aos seus 80 anos, há de se recordar, que eu, só queria ter minha cadeira de balanço ao lado da sua cadeira de balanço, nossos dedos entrelaçados e beijar sua testa, ser sua paz num dia de domingo. Como neste domingo, onde me alojo nesta solidão para não abandonar a mim mesma, embalada nas ilusões de outros esconderijos, só quero me guardar dentro do único por quem sinto amor.

(no final de 2013)

Sobre um assalariado

Em casas de colonial, os senhores de engenho contemporâneos escravizam seus sonhos e chicoteiam sua esperança com cordas psicológicas. Eles não têm tinta na caneta pena para assinar lei áurea, não suportam mais viver de escambo e autoflagelar a liberdade.

São de todas as cores, feridas e senzalas sem forma

São dos dois gêneros. Na escravidão do século XXI o conviver em sociedade é a maior prisão existente. Os salários são as correntes. Liberdade e prisão separadas por uma fina linha imaginária.

Eu me visualizo no espelho e vejo outras mulheres, as que a mídia vende.
Eu mudo de canal e vejo um outro monstro a engolir meus sonhos, sonhos? nem Aurélio sabe significar.

E nos camburões do dia-a-dia, me transportam para a senzala, enquanto meus olhos lacrimejam de saudade da minha mãe Africa que nunca teve liberdade para me amamentar.

Vou rasgar essas vestes e cortar meus pulsos, quem sabe noutra vida eu nasça no berçário que reside minha raça, minha paz, minha verdadeira alma.